A anestesia, por meio da inalação de éter e depois de clorofórmio, foi introduzida no Brasil em 1847 e 1848, respectivamente. Até então, e mesmo depois, muitas cirurgias eram realizadas sem anestesia, o que tornava o procedimento cirúrgico uma prática extremamente dolorosa e brutal.
Além das dificuldades já existentes nas cirurgias, mesmo após a introdução da anestesia, havia ainda os graves problemas causados pela falta de assepsia, já que não se conhecia a ação dos microrganismos. As taxas de mortalidade devido a infecções nas feridas cirúrgicas chegavam a 80% ou 90%. A prática da assepsia, incluindo a desinfecção das mãos dos cirurgiões e dos instrumentos com soluções à base de fenol, só foi introduzida em 1867. Sem esses avanços, o campo da cirurgia permanecia limitado, restringindo o cirurgião a atuar apenas em casos extremos, com baixas chances de sucesso e pouca oportunidade para explorar o corpo humano de forma mais aprofundada.
Em 1885, na cidade de Diamantina, uma copeira chamada Francelina, de cerca de trinta anos, passou por uma cirurgia de amígdalas após uma grave infecção que a impedia até mesmo de abrir a boca. O médico que a atendeu insistiu na urgência da operação, que foi realizada no dia seguinte, em plena sala de jantar, com as janelas abertas para iluminar o ambiente. A paciente foi acomodada em uma cadeira com travesseiros, enquanto alguns moradores da casa observavam o procedimento.
Antes de começar, o médico lavou as mãos e o canivete que usaria como instrumento cirúrgico em água e sabão, secando-os em seguida. Para ajudar Francelina a manter a boca aberta, ele utilizou o cabo de uma colher e, com o canivete, removeu as amígdalas inflamadas. Após alguns dias de repouso, a mulher se recuperou completamente, vindo a falecer anos mais tarde, vítima de tifo.
Esse caso revela que, embora a cirurgia tenha sido realizada em condições precárias, o médico demonstrou certa preocupação com medidas básicas de higiene, como a limpeza das mãos e do instrumento utilizado. Apesar da simplicidade dos métodos, a recuperação bem-sucedida da paciente sugere que o procedimento, ainda que rudimentar, foi eficaz. Água e sabão, mesmo naquela época, já eram reconhecidos como elementos importantes para a desinfecção.
Em regiões onde não havia médicos ou cirurgiões formados, os procedimentos cirúrgicos eram muitas vezes realizados por leigos ou pessoas com alguma familiaridade com práticas de saúde, como farmacêuticos. Esses profissionais não apenas preparavam remédios, mas também faziam pequenas cirurgias, redução de fraturas e até mesmo amputações quando necessário. Em Montes Claros, por exemplo, dois farmacêuticos se destacaram no final do século XIX e início do XX, tornando-se referência na cidade. Eram tão respeitados que a população costumava buscar sua opinião antes mesmo de procurar um médico.
Essa prática reflete a realidade da época, em que a escassez de profissionais qualificados levava pessoas com conhecimentos básicos a assumirem funções que, hoje, seriam exclusivas da medicina. A atuação desses farmacêuticos ilustra como o cuidado com a saúde, em contextos de limitações, dependia muitas vezes de habilidades improvisadas e da confiança da comunidade.
Até o final do século XIX, ainda havia espaço para que pessoas sem formação médica atuassem em práticas de saúde. A consolidação da medicina acadêmica na sociedade enfrentava diversos desafios: o número reduzido de médicos formados, a resistência da população em buscar seus serviços – muitas vezes preferindo métodos tradicionais – e a necessidade de regulamentar as atribuições de cada profissão relacionada ao cuidado do corpo.
Esse processo de profissionalização priorizava o conhecimento científico e a formação institucionalizada, em detrimento de práticas empíricas, remédios caseiros e tratamentos baseados em crenças populares. Um exemplo bem-sucedido dessa delimitação foi a restrição das atividades dos barbeiros, que, antes envolvidos em pequenas cirurgias e extrações dentárias, viram sua atuação limitada ao corte de cabelo e barba. Essa mudança refletia a crescente valorização da especialização e do rigor acadêmico na área da saúde.
FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves. Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, p. 277–291, jul./out. 1999. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-59701999000300003. Acesso em: 29 abr. 2025.